10. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE 15.8.12

1. O QUE PODEMOS APRENDER COM MARTE?
2. EM DEFESA DA RVORE

1. O QUE PODEMOS APRENDER COM MARTE?

A sonda Curiosity pousou no Planeta Vermelho com a misso de explicar questes como o que aconteceu com a gua de l, a existncia ou no de vida fora da Terra e a prpria formao do Sistema Solar
Juliana Tiraboschi

Gente gritando, sorrindo, chorando, pulando e se abraando. Parecia final de Copa do Mundo, mas eram os cientistas da Nasa comemorando o pouso do super-rob Curiosity, que chegou a Marte na madrugada da segunda-feira 6 depois de nove meses de viagem desde a Terra.
 
 O entusiasmo tem razo de ser. Esse  o equipamento mais sofisticado j enviado ao Planeta Vermelho e foi o pouso mais arriscado, delicado e preciso j realizado. Muita coisa podia dar errado, tanto que os cientistas da Nasa apelidaram a ltima etapa da aterrissagem de sete minutos de terror. Mas o procedimento foi um sucesso.
 
A Curiosity  um veculo equipado com cmeras de alta resoluo, sensores, braos mecnicos, furadeira e um complexo laboratrio. A sonda vai permanecer em solo marciano por pelo menos dois anos, coletando amostras de solo e fazendo anlises qumicas (leia quadro para saber mais detalhes). Seu principal objetivo  procurar por vestgios de material orgnico, ou seja, condies que indiquem que h ou j houve algum tipo de vida no planeta.

DIA DE FESTA - A alegria da equipe da Nasa em um momento histrico
 
S o fato de o veculo ter pousado em segurana j  um imenso avano de engenharia. Foi desenvolvido um sistema de descida totalmente novo, com o uso indito de aterrissagem guiada por piloto automtico, para carregar um rob muito pesado.  o tipo de tecnologia necessrio para levar o homem a Marte no futuro, diz Nilton Renn, professor de cincias planetrias e espaciais da Universidade de Michigan (EUA) e membro do grupo da Nasa que desenvolveu o sistema de monitoramento climtico e ambiental da Curiosity.
 
A escolha do local de pouso foi estratgica, j que a regio apresenta indcios de que j abrigou lquido, com o solo aparentemente argiloso e geomorfologia correspondente  existncia prvia de cursos de gua. H sinais de canais, como se fossem deltas de rios, diz Renn. Se houve gua,  provvel existir condies para o desenvolvimento de vida microbiana.
 
Alm disso, a regio montanhosa por onde a Curiosity vai se locomover abriga vrias camadas de solo, que correspondem a perodos diferentes da histria do planeta, que vo de centenas de milhares a dezenas de milhes de anos atrs. Saber mais sobre o passado de Marte ajuda a entender a formao e evoluo do Sistema Solar e da prpria Terra, diz Othon Winter, professor de astronomia da Unesp de Guaratinguet.

ESPERA - Multido na Times Square, em Nova York, acompanha ao vivo a chegada em Marte
 
Sabemos que Marte e a Terra eram muito parecidos h milhes de anos. O que aconteceu com a gua que havia l?, questiona o tambm brasileiro Ramon de Paula, executivo do programa de Marte da Nasa e responsvel pelas sondas orbitadoras Odissey e Mars Reconnaissance, equipamentos que vo enviar as informaes da Curiosity de volta  Terra. Eu chamo este projeto de misso verde, porque ele vai gerar conhecimento que pode ajudar a proteger o meio ambiente do nosso planeta, diz.
 
A busca por formas de vida em outros planetas tambm procura responder a questes filosficas. O ser humano sempre se perguntou de onde veio, se estamos sozinhos e se a vida  oriunda de outros planetas, diz De Paula. Alm de Nilton Renn e Ramon de Paula, outra brasileira est participando da misso da Curiosity.  a engenheira Jaqueline Lyra, que chefiou a equipe responsvel por regular a temperatura da sonda.
 
Por fim, misses como essa servem tambm a um propsito educacional. Elas inspiram crianas e jovens a estudar cincia e tecnologia, afirma De Paula. Na poca do projeto Apollo, na dcada de 1960, aumentou o nmero de estudantes de engenharia nos Estados Unidos, diz Renn. Eles torcem para que os passeios marcianos da Curiosity provoquem o mesmo encantamento e empolgao nos pequenos futuros cientistas.


2. EM DEFESA DA RVORE

Professor universitrio sobe em rvore para evitar corte pela Prefeitura de So Paulo e levanta debate sobre arborizao das metrpoles brasileiras 
Larissa Veloso

 HOMEM DE AO - Contra as motosserras, Henrique Carneiro subiu em uma das rvores da praa em frente  sua casa
 
Para a maioria dos habitantes das metrpoles brasileiras, as rvores da cidade no passam de um enfeite e essa  uma realidade fcil de constatar. Basta parar algum na rua e perguntar se a pessoa sabe o nome das espcies prximas  sua casa ou pedir que cite apenas as principais da sua cidade. Tem at quem reclame das folhas que sujam a calada ou das sombras que protegem a criminalidade.
 
Mas alguns fogem a essa regra.  o caso de Henrique Carneiro, 52 anos, para quem uma rvore no  s mais um acessrio do mobilirio urbano.  por isso que na segunda-feira 6 o professor de histria moderna na USP acabou subindo em um de seus exemplares favoritos para impedir que a Prefeitura de So Paulo cortasse parte de seus troncos. Prximo  casa do professor, na regio do Butant, zona oeste da capital, h uma praa com dezenas de espcies vegetais.
 
Muitas foram plantadas pelos prprios moradores. As crianas brincam todos os dias nessas rvores, sobem nos galhos e brincam entre os cips. Quando chega a primavera, ficam ansiosas para que a amoreira d frutos. Essas espcies tm valor sentimental para ns, enfatiza Carneiro.
 
"Muitos simplesmente no veem as rvores da cidade. Tm essa viso distorcida de que tudo  uma massa verde nica" - Ricardo Cardim, ambientalista
 
Apesar de no prejudicarem a fiao ou a passagem, e estarem saudveis, todas as rvores sofreriam cortes se no fosse a interveno do professor. Em nota, a Secretaria de Coordenao das Subprefeituras de So Paulo afirmou que o pedido de poda partiu do Conselho de Segurana da regio, que considerou o excesso de galhos um problema para a segurana dos frequentadores da praa e que as podas foram recomendadas aps vistoria e laudos tcnicos de engenheiros agrnomos.
 
A ao isolada do professor chamou a ateno para algo que est no cotidiano da cidade, mas que pouca gente liga. Muitos simplesmente no veem as rvores da cidade. Tm essa viso distorcida de que tudo  uma massa verde nica. E depois, se voc pergunta sobre meio ambiente, as pessoas dizem que apoiam sim, que  fundamental preservar. Morrem de d quando assistem s imagens na tev da Floresta Amaznica pegando fogo, mas no se importam de cortar uma rvore na frente de casa, critica o ambientalista Ricardo Cardim, autor de um projeto de resgate das rvores nativas de So Paulo. Hoje sabemos que as rvores so na verdade prestadoras de servios ambientais urbanos, acrescenta.
 
Nadando contra a corrente, o professor Carneiro continua atento ao menor sinal de barulho de serra eltrica perto de sua casa. Ele j inclusive entrou em contato com o Ministrio Pblico e a Secretaria do Verde e Meio Ambiente do Estado. Tambm estamos nos mobilizando para fazer um abaixo-assinado. No vou desistir, diz, orgulhoso e atento, o dom Quixote da pracinha.
